Desde pequeno, o traço mais marcante de José Felipe Utsunomia Chagas era a introversão. Palavras nunca foram o seu forte, por isso, quando disse que o entrevistaria ele falou de imediato: “Por que eu? Não sirvo para essas coisas!”. Depois de sete minutos de negociação, o músico, estudante de design gráfico e amante do futebol, que hoje tem 23 anos, concordou em contar um pouco de sua vida.
Lipi, como é conhecido, terminava de recortar imagens para seu portfólio, quando comecei a sessão de perguntas. Ele não se lembra, ao certo, como era quando criança, mas sobre esse período de sua trajetória já tenho algumas informações. Isso porque, passamos boa parte da infância jogando bola e pulando elástico juntos na rua de baixo de sua antiga casa, localizada no Parque Santa Rosa, em Suzano. O mestiço (mãe japonesa e pai brasileiro) sempre foi caladão. O que ele gostava mesmo era de dar risada. Essa é a memória mais vívida que tenho daquela época. Apesar da timidez, José Felipe era um menino alegre e sapeca.
Na adolescência, Lipi percebeu que não se interessava pelos modismos. Ele não bebe, não fuma, não gosta de baladas e jamais experimentou qualquer tipo de droga, ou seja, na visão dos jovens da atualidade José Felipe pode ser considerado um “careta”. Mas não é assim que ele se define. Quando toquei no assunto, ele disparou sem rodeios: “Não sou retrógrado, nem careta! Sou consciente e não vou ficar bebendo e fazer besteira por aí. Isso não combina comigo!”.
Felipe foi criado sem pressões, filho de pais separados, sempre teve total liberdade e autonomia para fazer suas escolhas. Tanto pôde escolher que decidiu ser diferente. A coisa mais rebelde que já vez em sua vida foi montar uma banda de rock (New Metal) com os amigos do colegial. O grupo, no qual Felipe tocava teclado e pick-up, chegou a gravar um CD, mas diversos contratempos fizeram com que banda, intitulada “Dump”, chegasse ao fim.
As artes, outra grande paixão de Lipi, o levaram a cursar Desenho de Animação na Universidade Braz Cubas. Excelente desenhista, ele não se contentou apenas com uma formação. Hoje, Felipe estuda design gráfico na Escola Panamericana de Artes e continua tocando teclado com sua nova banda (Bendito Seja). Não era preciso perguntar para saber que o grande desejo desse menino/homem é viver de música. “Um dia espero conseguir mostrar meu trabalho e não me preocupar com mais nada que não seja a música”.
A morte de sua mãe (ilustre jornalista da região), há três anos, provocou uma reviravolta na vida de José Felipe. O jovem se mudou para a casa do pai em Mogi das Cruzes e passou a conviver com uma nova família. Sua irmã mais nova, Nayara, foi quem deu suporte e forças para que ele superasse o “momento mais triste de sua vida”. Contudo, nem mesmo a perda foi capaz de tirar aquele sorriso escancarado que ele distribui por aí, sem esperar recompensas.
Para “arrancar” essas passagens da trajetória de José Felipe, foi preciso paciência. Um silêncio ensurdecedor sucedia cada pergunta feita. Mas o silêncio, por si só, já diz muito sobre as pessoas e, neste caso, convida a conhecer o que existe por trás do olhar de menino e do sorriso maroto. Felipe fala nas entrelinhas.